Pequeno Relato da Bravura do Kirikou

O teco-teco quica na pista de terra e levanta uma nuvem vermelha. Mais dois pulinhos e o Skywagon 1956 finalmente gruda no chão e começa a desacelerar. Lá fora, faz mais de quarenta graus e o sol brilha forte sobre o Centro de Treinamento do Kenya Wildlife Service em Tsavo. O chefe do lugar, com várias divisas militares bem à mostra sobre os ombros, se aproxima nos dá as boas-vindas em Suaíle:

- Karibu sana!

Rumamos ao que será nossa casa pela próxima semana. Aqui é a savana como vemos nos filmes sobre a África: mato rasteiro a perder de vista, horizonte trêmulo com calor, tons pastéis e avermelhados por toda parte. Nossa acomodação, umas casinhas individuais, isoladas umas das outras, no meio disso tudo. O Kirikou se sente um legítimo explorador das selvagens terras africanas.

- Bem, é aqui. O refeitório e as salas de aula ficam logo ali – aponta para um conjunto de galpões a uns cem metros.

- Tudo bem, obrigado.

- Sabe como é, não tem TV nem água quente, mas a noite não fará tanto calor…

- Sem problema, está ótimo assim.

- Er… o senhor tem uma lanterna, não?

- Hum… tenho, tenho sim. Mas, por quê?

- É que… sabe aquelas pedras ali?  – aponta novamente, uns cinqüenta metros da minha casinha – tem uns leões que costumam dormir lá. Mas é só dar uma focada de luz que eles vão embora.

- Ah… tá

- E talvez seja bom tirar esse relógio, que os babuínos gostam de coisas brilhosas e…

- Não, não, tudo bem – relógio aposentado pela semana.

- Certo…

- …

- Ah, uma última coisa: quando for sair pra jantar, ou quando voltar à noite, é bom também dar uma focada nos matinhos. É que aqui tem muita cobra nessa época do ano.

Ah, não. Peraí. Leão, tudo bem; macaco, vá lá. Mas cobra?! Já era o David Livingstone.

O Kirikou gosta de aventura, mas sabe reconhecer o valor das amenidades modernas.
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Olhos de Papel de Seda e uma Estrela na Testa

A noite é quente, úmida. Algumas gotas de chuva, gordas e pesadas, caem preguiçosas e se espatifam sobre o pára-brisas do carro, que sacode ao passar pelos muitos buracos da avenida. Seguimos pela margem da lagoa e as janelas abertas trazem o ar carregado do cheiro salgado do mar e de outros odores do que a cidade insiste em despejar nele. O fundo de caros prédios residenciais, com suas amplas varandas envidraçadas, tem em primeiro plano casinhas humildes à beira da estrada, telhados de zinco e paredes de tijolos nus ainda esperando reboco e pintura. Na calçada, sob a luz débil de uma única lâmpada, um grupo de rapazes toma cerveja. Ao longe, e cada vez mais perto, o cleque-cleque das matracas invade os ouvidos. São Luís do Maranhão.

O portal do Arraial é encimado por uma cabeça de boi enorme, colorida. Na testa, uma estrela. Não tem ingresso, basta se esgueirar por entre as pessoas e entrar. Barraquinhas vendem vatapá, arroz-de-cuxá, casquinhas de caranguejo e tortas de camarão. Cerveja, caipirinhas, guaraná Jesus. As matracas se juntam a zabumbas e orquestras, roda o boi, chacoalham as índias, rodopiam os cazumbás. Fitas espalham cores quando pendem dos chapelões dos caboclos, coroados de penas.

O Kirikou fala logo: São Luís não é para amadores. Ainda mais recentemente. O teto do aeroporto ameaçou cair e agora o incauto viajante embarca e desembarca num barracão. Tem buraco nas ruas – muitos e enormes. O serviço é ruim. As praias, vá lá, não são essa coisa de Caribe. O Sarney e seus cupinchas continuam mandando em tudo e são, sim, muito, muito maus.

Mas, para aqueles que conseguem encarar a carência de certos fricotes, venham. Venham em Junho. Venham ver o tambor-de-crioula, venham ver o cacuriá e venham, sobretudo, ver o Boi do Maranhão.

A César o que é de César. Tem boi no Brasil todo: do boi de mamão em Santa Catarina ao megalomaníaco boi de Parintins, o país inteiro se sacode com mais ou menos gingado. Todos têm seu valor. Mas tem o Boi do Maranhão. Aqui, dança todo mundo: vem a dona madame ralar seus sapatos de grife no cimento, vem seu Raimundo com a havaiana emendada, vem o gringo dorme-sujo, vem a velha, vem o menino. Todos se misturam, hipnotizados pela batida, pela luz, pelas cores. Celebram a beleza e o orgulho que resistem à rua esburacada e às maranhas de que só se beneficiam aqueles que chupam o tutano do povo há décadas – e insistem em não largar o osso.

Tudo bem, o Kirikou é mais que suspeito de falar. Embora não nascido na terra, o sangue maranhense correndo nas veias há gerações e os anos comendo da boa farinha mais que justificam a puxada de brasa para a sardinha: o Boi do Maranhão é a coisa mais linda do mundo e quem ainda não veio ver não sabe o que perde.

Nação Madre Deus, Menino e Chapelão e Fitas foram clicadas pela Tonha (de Tonha Feliz),
que costuma fazer muita inveja ao Kirikou com seu apurado olhar de fotógrafa.
Mais fotos na página do Flickr

 

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KirikouPress: Estrela.

O Kirikou lê as notícias: queda do Tupolev na Rússia, nova votação no senado, uma ou outra bizarrice (outro dia era a história dos americanos que haviam comprado uma casa que era um ninho de cobras). Enquanto cada notícia tem sua dose de tragédia humana – a das cobras em especial – são tantas as manchetes que quase nada chama realmente a atenção. Esta tarde, uma chamou.

A manchete até podia ser outra daquelas notícias que mais parecem piada para a gente dos escritórios rir da jequice do interior. Mas tinha uma foto. E a foto matava qualquer sorrisinho besta antes que ele pudesse sair pelo canto da boca.

Trata-se de um homem sentado à beira da estrada. Veste um blusão que um dia deve ter sido azul, mas agora, desbotado, denuncia horas de trabalho sob sol e chuva. Chama-se Cristiano. Naquela manhã bem cedinho, batia o frio do começo do inverno no interior de São Paulo e Cristiano seguia pela beira da estrada a bordo de sua carroça. Ao lado, o pai. De repente, um carro os atinge. Por trás.

Cristiano vivo, o pai vivo. Talvez alguns arranhões, imagino. O susto grande, com certeza, mas vivos. Quem não teve a mesma sorte foi Estrela, ferida de morte. Era ela, a égua Estrela, que puxava a carroça e agora agoniza um pouco pra lá do acostamento. Chamam a doutora para o sacrifício, aliviar o sofrimento da pobre coitada. E o carroceiro, blusão desbotado, boné na cabeça baixa, se ajoelha ao lado da amiga de desde os quinze anos e chora.

A foto da notícia (Fonte: UOL)

A foto da notícia (Fonte: UOL)

 

E é essa a notícia mais importante do dia.

KirikouPress.

O Kirikou não é chegado a sentimentalismo barato.
Mas tem um enorme respeito por gente de carne e osso.
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Ai ai ai, C’est L’Amour!

O dever costuma chamar o Kirikou nas mais importantes datas. Desta vez, em Paramaribo em pleno Dia dos Namorados, o Kirikou, que também tem coração, brinda os seus leitores (e a Tonha em especial) com estas pérolas do romantismo tupiniquim que, quem diria, virou global:

Porque o amor é brega!

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Na Estante do Kirikou: Ginga e Gogó

Dançarina e Guitarrista em Ségou

Se a maioria concorda que o coração musical do Brasil está na Bahia (o Kirikou acha que está no Maranhão, na verdade), o da África está no Mali. Não que falte boa música em outros lugares, mas o gingado e o gogó dos malineses têm de fato algo de especial. E isso num continente onde o gingado e o gogó são tão bons que são os pais do nosso.

Se quisessem outros nomes, Gingado e Gogó bem que poderiam se chamar Amadou e Mariam . Cegos, já participavam da cena musical de Bamako quando se casaram no começo dos anos oitenta. No meio daquela década, já tinham também feito alguma fama em incursões pelo Burkina Faso e Costa do Marfim: tocavam aqui e acolá, vendiam fitas cassete no final da performance. Chegaram a Paris, onde gravaram o primeiro disco: Sou Ni Tile. Sucesso absoluto. Em 2004, esbarraram em Manu Chao e fizeram, juntos, o excelente Dimanche à Bamako. Hoje já são seis discos, cada um melhor que o outro. A história completa do musicalíssimo casal virou livro com críticas muito boas internet afora. O Kirikou ainda não conferiu o livro, mas vai fazê-lo. Assunto para outra Estante do Kirikou.

O Kirikou traz, via youtube, duas musiquinhas de Amadou e Mariam, só para dar um gostinho.

Aproveitem!

Depois disso, sinceramente, dá para encarar a lêide gaga?

 

 

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A, B, C, AIDS.

Friozinho na manhã de maio em Harare. O desjejum do hotel não esconde a herança inglesa desta cidade que já se chamou Salisbury: feijões doces, lingüiças de vários tipos, muito bacon, scones. O Kirikou se contenta com um cafezinho preto, sem o qual não se pode começar um dia. E, logicamente, o jornal. Na primeira página do The Herald, uma palavra chama a atenção: circuncisão. Hã? Como a circuncisão foi parar na primeira página do jornal de maior circulação do país?

Tesoura

Zimbábue: A Circuncisão na Linha de Defesa

Em meados de 2009, o governo do Zimbábue lançou uma campanha para promover a circuncisão como forma de diminuir o risco de infecção pelo HIV. Há estudos, realizados no Quênia, em Uganda e na África do Sul, que dizem que a tesourada no seu melhor amigo reduz em até 60% o risco de contrair não apenas o HIV/AIDS, mas também outras doenças sexualmente transmissíveis. Vá lá. O Kirikou é curioso, mas não é infectologista. Se os especialistas dizem, pode mesmo ser verdade. No jornal, o depoimento de um menino que, numa tradução livre, diz:

“No começo eu fiquei com dúvida, mas aí fui até a minha mãe e pedi que ela me deixasse fazer. Ela me mandou conversar com meu pai, e ele me explicou direitinho. Daí eu fui à escola com a autorização assinada e o procedimento foi feito lá mesmo.”

E – Snip! Snip! – tesoura nele.

Mas o que interessa é que um terço de todas as pessoas vivendo com HIV no mundo estão na África subsaariana. São quase 23 milhões de pessoas. Desde o começo da epidemia, aí pela década de 80, quase 15 milhões de crianças perderam seus pais para a doença. Uma verdadeira tragédia.

ABC

Camarões: O Sexo Pode Esperar

Abstinence, Be-faithful, Condoms – abstinência, fidelidade, camisinha – é o beabá da maioria dos programas de combate à AIDS na África. Há quem ache bonito: em Uganda, parece ter dado mais certo que errado. Mas há problemas. Pra começo de conversa, este é um abecedário culturalmente complicado. Sejamos realistas: abstinência é, no mínimo, pouco prática. Não bastasse a demanda hormonal e a crescente oferta para supri-la (na África e em praticamente qualquer lugar do mundo), a virilidade ainda é um ponto de honra para a maioria dos moços na maioria das culturas do continente. É preciso fazer sexo, e com o máximo de mulheres possível. O que nos leva, aliás, ao B: o que é fidelidade, afinal? Muitas mulheres africanas toleram – alguma até esperam – que o marido tenha filiais por aí. Ou nem tão longe: não esqueçamos que a poligamia é a regra em muitas sociedades. E o C? Bem, o C, todos sabemos, é simples: encape seu amigo e pronto. Mas lembra da virilidade? Pois é: para muitos africanos, a camisinha é coisa para fracos…

Quem Quer Saber?

Mali: Sim ao Teste

Claro que isso não explica o problema. Mais uma vez, o buraco é sempre muito, muito mais embaixo. Mas parece ser claro que uma solução  para o meio-oeste norte-americano tem poucas chances de dar muito certo na África (ou mesmo no interior do Nebraska, se bem me perguntar). Os desafios são inúmeros. Se há gente bem-intencionada trabalhando com o assunto, há outros não tão legais no meio também. Tem gente que entende que a África é diversa, e que o que funciona em Botsuana pode não funcionar no Mali. Tem gente que acha que na África é tudo igual. Algumas pessoas vão às vilas, favelas e bairros chiques para conversar com quem mora lá. Querem saber. Outras desembarcam com apresentações em PowerPoint e pastinhas coloridas para apresentar aos ministérios da saúde. Não querem nem saber.

Para piorar as coisas, o Papa tem a cara-de-pau de dizer que a camisinha pode piorar a epidemia de HIV/AIDS na África. Na cara de mais de vinte milhões de pessoas que hoje têm que conviver com o vírus. Bem na lata de quinze milhões de órfãos. Francamente.

Para saber mais: http://www.avert.org/aids-hiv-africa.htm
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Desafio do Kirikou: Subindo o Morro

- A partir daqui, é bom fechar bem as janelas. Se quiser tirar foto, seja discreto. Melhor não chamar atenção com a câmera.

Estamos num microônibus abarrotado que havíamos tomado na praça principal, em um ponto bem embaixo de uma varanda de madeira entalhada que se projetava de um prédio amarelo-ovo como se estivesse sido colada ali, empréstimo de alguma outra construção. Acabamos de atravessar um riozinho que mais é um filete de água barrenta que corre rápido por entre pedras encardidas, mas é tão importante que batiza esta cidade de trânsito caótico e lugares onde é bom se fechar a janela do carro. O Kirikou até parece que está em casa.

À nossa frente, um morro cheio de casinhas multicoloridas lembra vagamente o Rio de Janeiro. Vagamente. Aqui, nada de corpos malhados em praias de areia branca: o mar é frio e bravo, e se estatela em pedras no fundo de falésias. A água fria se deve a uma corrente marítima que leva o nome de um famoso naturalista que até tentou ficar um tempo no Brasil, mas foi impedido pelos portugueses, que acreditavam que fosse um espião. A baixa temperatura do mar, aliás, é responsável por uma das muitas riquezas deste país: o pescado. Provavelmente, você já comeu atum daqui e nem desconfia. O prato nacional também leva o peixe local, preparado de forma um tanto estranha para nós, mas sucesso quase unânime em muitos restaurantes Brasil afora. Este prato, se você comeu, sabe bem qual é.

Mas voltemos ao microônibus. Subimos por uma estradinha de uma só pista, com curvas em cotovelo, em direção ao cume do morro. As casinhas coloridas já ficaram para trás, mas, olhando para baixo, a enorme favela impressiona pela ausência de tetos na maioria das casas. Chove muito pouco aqui, por causa da mesma corrente marítima que faz toda água do céu cair no mar mais adiante.

Já em cima, uma senhora de vermelho observa o cinza empoeirado da cidade abaixo. Observa não quinhentos, mas milhares de anos de história. Observa mais de oito milhões de almas que enfrentaram bravamente dez anos governados por um presidente infame por ter embolsado milhões e partido para o outro lado do mundo, deixando o país inteiro num buraco do qual ainda se tenta sair. Aqui, neste final de tarde de janeiro, o Kirikou faz uma pausa para provar uma estranha beberagem amarela, símbolo do país, cujo logotipo é um dos suvenires favoritos de quem vem visitar. E pergunta:

  • Em que cidade está o Kirikou?
  • Como se chama o rio que a batiza?
  • Qual o nome da corrente marítima (e, claro, do naturalista)?
  • Que famoso prato se faz aqui com o pescado?
  • Quem foi o presidente fujão e para onde escapou?
  • Que é a tal beberagem amarela?
O Kirikou não gostou muito da tal bebida, mas o importante é provar.
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Tocando o Barco

-Passport, please.

Devia ter, quem sabe, uns dezesseis, dezessete anos. O cabelo, não exatamente loiro, mas de um castanho bem clarinho, está amarrado em um rabo-de-cavalo que vai até o meio das costas. Na orelha, um brinquinho com uma só pedra, vermelha; e na boca, sem batom, dentes de menina que usou aparelho ortodôntico.  O companheiro sobe no microônibus logo atrás: barba por fazer, cabelos desgrenhados, precisando de um corte. Tem também um brinco: uma argola dourada na orelha esquerda. Masca chiclete. Dezenove, vinte anos. Não mais que isso.

Em qualquer outro lugar, estes dois estariam mais preocupados com a balada do fim-de-semana ou em juntar dinheiro para aquele feriadão na praia. Talvez estivessem se pegando. Carregariam uma mochila ou um livro para estudar para a prova de química orgânica ou um desses famigerados aipedes. Em qualquer outro lugar, mas não aqui. Aqui, cada um carrega consigo um fuzil enorme. A menina, magrinha, engana: o trabuco nem pesa na mão dela.

Estamos em Qalandia, no checkpoint entre Ramalá, na Palestina, e Jerusalém, em Israel. Ierushaláim, como chamam os judeus. Para os árabes, Al-Quds. Só aí já se anuncia a confusão.

Estamos do lado palestino. Nosso roteiro nos leva através do checkpoint, de onde seguiremos para cruzar Jerusalém de uma ponta a outra para, mais à frente, entrar novamente na Palestina, em Belém. Voltemos ao checkpoint: à minha esquerda e à minha direita, a perder de vista, um muro encimado com arame farpado. No concreto, inscrições garrafais trazem, em árabe e algumas em inglês, palavras de ordem. Atrás, em nossa cola, uma fila interminável de carros. Bem no meu nariz, rabinho-de-cavalo e seu trabuco:

-Passport, please.

Assim mesmo. Não era uma pergunta. Uma ordem. E o pau-de-ferro lá.

- Sure, sure – não sou nem louco de fazer gracinha – here you are.

Ela toma o passaporte verdinho, olha para ele, olha de volta para mim. Olha de novo.

-Oh, Brazil.

-Er… Yes. Brazil...

Ela desamarra a cara um pouco. Até aqui, ser brasileiro parece que arrefece certos ânimos. Mas não muito: ela só diz um ok e devolve o passaporte. Desce do carro, o cabeludo sempre acompanhando.

Já liberados, na relativa segurança da porta fechada do veículo, estico o pescoço e me deparo com uma fila enorme, que termina no que me parece uma porteira daquelas de curral, pela qual só passa um boi por vez. Aqui, os bois são palestinos. Converso com o motorista, que explica:

- É, esse pessoal aí tem é sorte. Eles têm visto para passar para o lado de lá. Todo dia de manhã vão para o trabalho. Mas não podem dormir lá; têm que voltar até as onze da noite. Se não, cadeia. Três meses. Na hora. E babau visto, babau emprego.

- Ora, mas e se acontecer algo? Sei lá, o cara ficou doente? Ou saiu do trabalho, tomou umas e dormiu no banco da praça? Ou perdeu o último ônibus?

- Não tem conversa. Cadeia.

O muro circunda boa parte do território Palestino, com passagens controladas aqui e ali (os tais checkpoints). Israel diz que ele é necessário por razões de segurança, afinal, não é raro o bicho pegar por aqui. A TV é prova: está sempre mostrando a palestinada enlouquecida, tacando pedra e molotov e bomba e o diabo a quatro. Há que se proteger. Há pouco tempo mesmo houve o caso horrível da família brutalmente massacrada em um assentamento judeu: pai, mãe e filhos retalhados pela faca do árabe tresloucado. Troço realmente abominável, nem há o que se discutir.

Mas o diabo é que a câmera, assim como a caneta do jornalista, é só uma janelinha. Conta o fato, é verdade, mas não conta tudo. A câmera só mostra aquilo para que é apontada.

Logo antes da primeira visita à Palestina, o Kirikou ouviu dos amigos:

- Palestina!? Tu é doido, rapaz?! Lá tá cheio de terrorista. É melhor levar um colete à prova de balas!!!

Assentamento israelense em território palestino (Belém)

Não é tão simples assim. Israel cerca a Palestina com mais que o muro: controla na prática o fornecimento de água, de energia elétrica, de comida. Regula com mão de ferro as construções palestinas, que precisam de autorização para qualquer tijolo a mais se queira colocar. Autorização que quase nunca vem. Com uma mão, Israel dá o controle de certos territórios aos palestinos; com a outra, instala dentro destes mesmos espaços os famigerados assentamentos, nos topos dos morros, que vão crescendo ladeira abaixo e dando mais um chega pra lá nos temidos vizinhos.

Sim, temidos. Israel tem medo. E não é pra menos: os vizinhos mais moderados deixam bem claro que apenas os agüentam; os menos políticos rosnam publicamente que eles têm mais é que sair dali ou vão levar chumbo. Acuado, decide acuar. Arreganha os dentes, espuma pela boca, constrói um muro. Tudo isso com o apoio – a grana – de quem tem muito interesse na região, tão estratégica. Há poucos dias, o Obama se disse favorável ao retorno às fronteiras de 1967 para Israel. Alguns meses antes, a Hillary Clinton condenou publicamente os assentamentos judeus em território palestino. Mas a realidade se mostra outra: na prática, os EUA e, para ser mais justo, a maioria da chamada Comunidade Internacional, não parece lá muito interessada em apaziguar os ânimos por estas bandas.

No meio de todo este imbróglio, paquitas de rabo-de-cavalo e paquitos que nem aprenderam direito a fazer a barba seguram trabucos nos checkpoints. Conferem todos os dias os passes de outras moças e rapazes da mesma idade que vão a Jerusalém descolar alguns shekels. E toca-se o barco.

O Kirikou está convencido de que a diferença entre quem bate e quem apanha
é uma mera questão de oportunidade.

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A Estante do Kirikou: Muito Ajuda Quem Não Atrapalha

Dead Aid, de Dambisa Moyo

Dead Aid, de Dambisa Moyo

Para entender melhor o mundo, não é necessário pagar taxa de embarque e entrar num avião. O Kirikou, a partir deste post, te mostra um pouco de sua estante.

A ajuda internacional à África é impossível passar despercebida. Ela é assunto nos noticiários televisivos e salta aos olhos em qualquer viagem pelo interior do continente, onde caminhonetes brancas ostentam os emblemas das mais variadas entidades internacionais. Assim, para melhor entender a África de hoje, é necessário buscar entender o papel da dinheirama que a chamada comunidade internacional (que será isso?), inclusive o Brasil, tem derramado por lá.

Dead Aid, da zambiana Dambisa Moyo, trata exatamente disso. Disponível no Brasil, embora sem tradução para o português, o livro parte do pressuposto que a ajuda financeira do estrangeiro à África tem sido na realidade um grande tiro pela culatra: ao invés de ajudar, tem atrapalhado. E muito. O argumento central é que, apesar dos 300 bilhões de dólares (!) doados ao continente desde 1970, a África ficou ainda mais pobre:

“Entre 1970 e 1998, quando o fluxo de ajuda à África esteve em seu auge, a taxa de pobreza [...] de fato aumentou de 11 para 66 por cento.”

Na primeira parte (O Mundo da Ajuda), Moyo explica como, basicamente, isso acontece porque a corrupção se apropria de quase toda a bufunfa, financiando ainda mais o círculo vicioso da miséria. Mais adiante, na segunda parte do livro (Um Mundo sem Ajuda), propõe soluções. Em linhas gerais, prega como saída para o problema o setor privado e a livre iniciativa.

Bem, bem. É um livro bem curto – são apenas 137 páginas – para tentar explicar um problema tão complexo. Ademais, os anos de Moyo na Goldman Sachs e no Banco Mundial se fazem bem presentes em suas posições. E, a bem da verdade, a autora não é exatamente uma exímia escritora: às vezes se perde e a leitura tem umas lombadas aqui e acolá. Ainda assim, o Kirikou recomenda.

O Kirikou recomenda porque é uma ótima introdução ao assunto. Nem todo mundo é economista com peagadê e, convenhamos, pouca gente tem saco para calhamaços escritos no mais indecifrável tecniquês. Uma outra razão – talvez a mais importante – para se ler Dead Aid é o fato de que há gente que gosta e gente que não gosta da obra. Discordar é essencial e é bom desconfiar muito das unanimidades. O debate está bem à mão, na Internet, e, usando a cabeça e o criticômetro, é possível sair lá na ponta entendendo melhor qual é realmente a do Bono Vox.

Boa leitura e até a próxima!

O Kirikou acha que, com um bom criticômetro, dá pra ler quase tudo.
Só a Caras não dá de jeito nenhum.
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As Mina, Os Mano, Os Livro

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Oswald de Andrade

 

 

Há dois dias, o Kirikou tem acompanhado um interessante rebuliço na mídia. Trata-se de um livro, adotado e distribuído pelo Ministério da Educação a um sem-número de escolas país afora, que cometeu a ousadia de pregar que falar “os livro” é perfeitamente aceitável. Eis o trecho:

‘Mas eu posso falar os livro?’. Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico

Hoje de manhã esbravejava na TV Globo aquele jornalista, dizendo que isso era a “moda do politicamente correto”, que neste país se evitava algemar criminosos de gravata à frente das câmeras para evitar que fossem constrangidos, que a Coréia e a China conseguiram chegar aonde chegaram por oferecer “educação rígida, tradicional e competitiva” e que não se podia incentivar esse negócio de “falar errado”. O Kirikou andou fuçando os jornais e percebeu que ele não está sozinho: o azedume é generalizado.

Ora, ora. Isso pode, sim, ser sério.

Para começo de conversa, pode-se falar “os livro”, sim. Tanto se pode que se fala. Todo dia. Em todo o país. Assim como ninguém chega na padaria e diz “Dê-me dois pães”. Assim como se ouve “tu fez” a torto e a direito. E ninguém morre por isso. Muito pelo contrário: vive-se, sobretudo, assim.

Logicamente, há a norma culta. Vai-se à escola para se aprender a “falar certo”. Tudo bem que a língua é mais que instrumento de mera comunicação: ela é também cartão de visita, é usada para impressionar e pressionar. É verdade; não basta falar – e escrever – de qualquer jeito, e a escola está aí para manter uma certa ordem e fazer de nós cidadãos de bem, e (como não?) competitivos. Afinal, estão aí a Coréia e a China.

Mas acontece que o buraco é bem mais embaixo. Além de comunicar e impressionar, a língua também pode ser usada para dominar. O menino chega à escola e, na aula de Português – com P maiúsculo – aprende que nunca soube falar direito. Aprende que sua concordância é torta e que sua colocação pronominal é burra. Aprende até, às vezes, que seu sotaque é caipira, uma caricatura grotesca. Ao terminar a aula, descobre, embasbacado, que não fala Português, que aquilo que usa todo dia em casa, na rua e no campinho de futebol não passa de uma imitação capenga da língua de verdade. E, daí pra frente, haja levar pau nas provas da língua que, de materna, virou madrasta. Mais tarde, babau competitividade.

Quem vive apontando o certo e o errado em tudo o que lê e ouve carece mesmo é de saber das coisas. Quem entende que a língua – essa coisa tão humana que, segundo o jornalista, nos difere dos animais – é algo que se pode pôr numa caixinha e servir arrumadinho como se fosse um sanduíche de lanchonete americana comete um erro muito maior que falar “os livro”. Como tudo em que a humanidade põe a mão, a língua muda de cor conforme o lado do qual a olhamos, e tem tantas caras que mesmo quem dedica a vida inteira a esmiuçá-la morre sem conhecê-la por completo. A norma culta, o que está escrito nos tão temidos livros de gramática, é só mais um dessas caras.

O que a escola tem que fazer é apresentar ao aluno – que já sabe a língua, mas deve aprender mais sobre ela – quantas facetas conseguir, inclusive, logicamente, o tal Português. O Kirikou foi atrás e viu que o livro tenta fazer isso. Ele não deixa de “ensinar” a língua culta; mas tem a bravura de defender a nossa língua do dia-a-dia em um de seus capítulos. Como diz uma das autoras:

“A língua portuguesa apresenta muitas variantes, ou seja, pode se manifestar de diferentes formas (…)”

E mais ainda:

“A abordagem é adequada, pois diversos especialistas em ensino de língua afirmam que tomar consciência da variante linguística que se usa pode ajudar na apropriação da norma culta.”

Enfim, gente, vamos deixar de frescura. Somos todos – todos – donos da nossa língua, do nosso falar. De todas as suas caras, da mais deslavada à mais cheia de plumas e paetês. E a educação, senhor jornalista, tem um papel muito maior que nos deixar mais competitivos, produtivos, ricos e emergentes. Ser educado é ser mais gente. É ser mais dono de si e, por extensão, de sua língua. A tudo isso, se chega, sim, com muito estudo e investimento no sistema educacional. Mas, sobretudo, com liberdade. E inclusão.

 

O Kirikou conhece bem a língua culta mas não usa a mesóclise na mesa do bar.
É que pega muito mal.
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