-Passport, please.
Devia ter, quem sabe, uns dezesseis, dezessete anos. O cabelo, não exatamente loiro, mas de um castanho bem clarinho, está amarrado em um rabo-de-cavalo que vai até o meio das costas. Na orelha, um brinquinho com uma só pedra, vermelha; e na boca, sem batom, dentes de menina que usou aparelho ortodôntico. O companheiro sobe no microônibus logo atrás: barba por fazer, cabelos desgrenhados, precisando de um corte. Tem também um brinco: uma argola dourada na orelha esquerda. Masca chiclete. Dezenove, vinte anos. Não mais que isso.
Em qualquer outro lugar, estes dois estariam mais preocupados com a balada do fim-de-semana ou em juntar dinheiro para aquele feriadão na praia. Talvez estivessem se pegando. Carregariam uma mochila ou um livro para estudar para a prova de química orgânica ou um desses famigerados aipedes. Em qualquer outro lugar, mas não aqui. Aqui, cada um carrega consigo um fuzil enorme. A menina, magrinha, engana: o trabuco nem pesa na mão dela.
Estamos em Qalandia, no checkpoint entre Ramalá, na Palestina, e Jerusalém, em Israel. Ierushaláim, como chamam os judeus. Para os árabes, Al-Quds. Só aí já se anuncia a confusão.

Estamos do lado palestino. Nosso roteiro nos leva através do checkpoint, de onde seguiremos para cruzar Jerusalém de uma ponta a outra para, mais à frente, entrar novamente na Palestina, em Belém. Voltemos ao checkpoint: à minha esquerda e à minha direita, a perder de vista, um muro encimado com arame farpado. No concreto, inscrições garrafais trazem, em árabe e algumas em inglês, palavras de ordem. Atrás, em nossa cola, uma fila interminável de carros. Bem no meu nariz, rabinho-de-cavalo e seu trabuco:
-Passport, please.
Assim mesmo. Não era uma pergunta. Uma ordem. E o pau-de-ferro lá.
- Sure, sure – não sou nem louco de fazer gracinha – here you are.
Ela toma o passaporte verdinho, olha para ele, olha de volta para mim. Olha de novo.
-Oh, Brazil.
-Er… Yes. Brazil...
Ela desamarra a cara um pouco. Até aqui, ser brasileiro parece que arrefece certos ânimos. Mas não muito: ela só diz um ok e devolve o passaporte. Desce do carro, o cabeludo sempre acompanhando.
Já liberados, na relativa segurança da porta fechada do veículo, estico o pescoço e me deparo com uma fila enorme, que termina no que me parece uma porteira daquelas de curral, pela qual só passa um boi por vez. Aqui, os bois são palestinos. Converso com o motorista, que explica:
- É, esse pessoal aí tem é sorte. Eles têm visto para passar para o lado de lá. Todo dia de manhã vão para o trabalho. Mas não podem dormir lá; têm que voltar até as onze da noite. Se não, cadeia. Três meses. Na hora. E babau visto, babau emprego.
- Ora, mas e se acontecer algo? Sei lá, o cara ficou doente? Ou saiu do trabalho, tomou umas e dormiu no banco da praça? Ou perdeu o último ônibus?
- Não tem conversa. Cadeia.

O muro circunda boa parte do território Palestino, com passagens controladas aqui e ali (os tais checkpoints). Israel diz que ele é necessário por razões de segurança, afinal, não é raro o bicho pegar por aqui. A TV é prova: está sempre mostrando a palestinada enlouquecida, tacando pedra e molotov e bomba e o diabo a quatro. Há que se proteger. Há pouco tempo mesmo houve o caso horrível da família brutalmente massacrada em um assentamento judeu: pai, mãe e filhos retalhados pela faca do árabe tresloucado. Troço realmente abominável, nem há o que se discutir.
Mas o diabo é que a câmera, assim como a caneta do jornalista, é só uma janelinha. Conta o fato, é verdade, mas não conta tudo. A câmera só mostra aquilo para que é apontada.
Logo antes da primeira visita à Palestina, o Kirikou ouviu dos amigos:
- Palestina!? Tu é doido, rapaz?! Lá tá cheio de terrorista. É melhor levar um colete à prova de balas!!!

Assentamento israelense em território palestino (Belém)
Não é tão simples assim. Israel cerca a Palestina com mais que o muro: controla na prática o fornecimento de água, de energia elétrica, de comida. Regula com mão de ferro as construções palestinas, que precisam de autorização para qualquer tijolo a mais se queira colocar. Autorização que quase nunca vem. Com uma mão, Israel dá o controle de certos territórios aos palestinos; com a outra, instala dentro destes mesmos espaços os famigerados assentamentos, nos topos dos morros, que vão crescendo ladeira abaixo e dando mais um chega pra lá nos temidos vizinhos.
Sim, temidos. Israel tem medo. E não é pra menos: os vizinhos mais moderados deixam bem claro que apenas os agüentam; os menos políticos rosnam publicamente que eles têm mais é que sair dali ou vão levar chumbo. Acuado, decide acuar. Arreganha os dentes, espuma pela boca, constrói um muro. Tudo isso com o apoio – a grana – de quem tem muito interesse na região, tão estratégica. Há poucos dias, o Obama se disse favorável ao retorno às fronteiras de 1967 para Israel. Alguns meses antes, a Hillary Clinton condenou publicamente os assentamentos judeus em território palestino. Mas a realidade se mostra outra: na prática, os EUA e, para ser mais justo, a maioria da chamada Comunidade Internacional, não parece lá muito interessada em apaziguar os ânimos por estas bandas.

No meio de todo este imbróglio, paquitas de rabo-de-cavalo e paquitos que nem aprenderam direito a fazer a barba seguram trabucos nos checkpoints. Conferem todos os dias os passes de outras moças e rapazes da mesma idade que vão a Jerusalém descolar alguns shekels. E toca-se o barco.
O Kirikou está convencido de que a diferença entre quem bate e quem apanha
é uma mera questão de oportunidade.